No embalo da Marcha da Maconha, que vêm ocorrendo em várias capitais do país e que em Florianópolis vai acontecer nesse sábado, dia 28, com concentração no trapiche da avenida Beiramar Norte, Hoje falamos um pouco sobre essa planta muito-multi-utilizada, tratando mais sobre a questão que envolve a legalização.
Primeiro vamos dar um breve histórico sobre a maconha.
Existem registros de utilização de maconha em vários cantos do mundo desde muito tempo atrás. Ela foi a primeira planta a ser cultivada sem ser para a gente comer.
A planta já era usada como medicamento na China antiga, a data não é bem precisa, mas é algo em torno de 2700 anos antes de Cristo. Os hindus na Índia e no Nepal também a utilizavam como medicamento.
Da fibra do cânhamo, que a planta de onde se extrai a maconha, os nossos antepassados faziam cordas, tecidos, e mais tarde, papel. Desde que os chineses inventaram o papel, o cânhamo foi utilizado para a sua fabricação. Também Gutemberg, o inventor da imprensa, imprimiu seus livros em cânhamo. E até a constituição dos EUA, aprovada em 1787, foi escrita em papel de cânhamo.
As velas das caravelas das Grandes Navegações eram feitas da fibra do cânhamo, assim como as cordas dos navios, pelo fato de a fibra do cânhamo ser muito resistente, bem mais que a fibra do algodão.
Durante séculos, o cânhamo deve papel decisivo no poderio econômico de reinos como Portugal, Espanha, Inglaterra. Todos investiram em cultivar em suas colônias essa planta que fornecia uma fibra tão resistente.
E não era só esse uso como fibra e como papel. A iluminação pública, antes da iluminação a gás ou elétrica, chegou a ser feita de óleo de cânhamo, como alternativa ao óleo de baleia. Depois na pintura, uma boa parte das tinturas da pintura eram feitas de óleo de cânhamo. Até a tela das pinturas era feita de tecido de cânhamo. Então havia um uso tradicional, medicinal, industrial, entre outros.
Além da importância econômica e cultural que teve na Europa, a cannabis era conhecida por seus potenciais medicinais. A resina do cânhamo era indicada para diversos males, como analgésico, anti-convulsionante, expectorante e afrodisíaco. O uso mais tradicional na antiguidade era a cannabis, ou seus derivados, ingeridos. Tanto na forma líquida quanto na sólida. Eram usos tanto para fins de consolo da dor, como para apaziguar náuseas, e também para afecções gastro-intestinais, para dores de estômago, diarréias. Servia como relaxante geral. Era muito comum o uso tópico nos mamilos de mulheres que amamentavam, para rachadura nos mamilos.
De certa forma, foram esses usos medicinais da cannabis que fizeram a igreja se manifestar pela primeira vez sobre o assunto. Em 1484, o papa Inocêncio VIII declarou o uso da cannabis um sacrilégio, porque a erva era usada pelos curandeiros que Inquisição perseguia. Essa desaprovação da igreja contribuiu, e muito, para que a ganja começasse a ser proibida em alguns países, por causa da influencia que a igreja exercia na época. Ela ainda tem bastante influencia sobre a sociedade, mas não como era antes.
Quando se fala em legalizar a maconha, a maioria pensa que vai virar bagunça, que vai aumentar a criminalidade, que vai ter um monte de drogados pelas ruas. Porém, o que se viu em países que legalizaram é exatamente o contrário. Com a maconha legalizada, o governo terá um controle maior sobre a ganja, podendo até arrecadar impostos sobre a relva. Sim, se for legalizado vai ter produção industrial. Inclusive, falando em produção industrial, o cânhamo (que é a planta de onde se extrai a maconha) tem diversas aplicações industriais, como tecido e cordas muito resistentes, além de detergentes, sabonetes, perfumes, papéis, tintas, lubrificantes, materiais de construção, dentre outras aplicações. Mas isso é assunto para outra discussão. Hoje vamos focar mais na questão na legalização da maconha mesmo.
Com a legalização, os usuários vão poder plantar cânhamo em casa, o que é uma maravilha para quem fuma, pois o cara vai ter uma ganja mais limpa e barata, e também não vai mais correr o risco de subir um morro para pegar maconha, o que é algo sempre arriscado pois tu pode ter problemas tanto com os malucos lá em cima quanto com a polícia no trajeto de volta para casa. Além disso, os traficantes perderão parte de seu poder aquisitivo, pois a raça vai parar de comprar com eles.As drogas ilegais possibilitam o surgimento de organizações criminosas muito poderosas, pois o comércio dessas substâncias gera um lucro altíssimo para os traficantes, que compram mais armas com esse dinheiro e financiam assaltos e outros crimes. Portanto, diferente do que muitos pensam, a legalização da maconha ajudaria a reduzir a criminalidade. E disso a gente ta precisando, porque esse Brasilzão tá cada vez mais violento.
Por que não legalizar?
Diferente de outras drogas, a maconha deixa o cara relaxado, tranquilo, de boa. A desculpa de que deixa o cara louco, transtornado, é furada. O cara fica sim alterado, mas numa viajem tranquila, meio dispersivo, no canto dele. Não é porque alguém fuma um baseado que vai sair por aí fazendo besteira, cometendo crimes. Pode ser que alguém que fume, cometa um crime na sequencia. Mas não será por causa da maconha, e sim porque o cara é uma pessoa ruim. Ou como dizia o Bezerra da Silva, o cara tem parte no espírito mau.
Países como Holanda, Itália, Espanha, Canadá e Colômbia não criminalizam o porte para uso pessoal. Na Argentina chegaram a descriminalizar, mas voltaram atrás depois. Aqui no Brasil, deveriam descriminalizar, que é permitir o porte para uso pessoal, ou até legalizar, que é permitir o porte, o plantio, o consumo e o comércio da planta. Legalizar significaria trazer a maconha para o domínio das leis, das regras.
E se fosse legalizada, aconteceriam no mínimo 3 coisas boas já de cara:
a 1ª é que o governo deixaria de gastar um rio de dinheiro como gasta atualmente, tentando acabar com a maconha, e prendendo e processando usuários não violentos; a 2ª é que, sendo legalizada, teria industrialização da erva e o governo poderia cobrar impostos, como qualquer outro produto vendido no mercado. Isso traria um aumento significativo na arrecadação do governo, o que se traduz em mais dinheiro para gastar com saúde, educação, segurança pública e outros assuntos importantes; e a 3ª é que a maconha estaria menos disponível para as crianças, pois seria controlada pelo governo, assim como é com as bebidas. Quando alguém mais novo vai comprar bebida, costuma-se pedir a identidade dele, para ver se tem mesmo 18 anos. Ou pelo menos era para ser feito. O traficante não pede nunca a identidade. Portanto, teoricamente, as crianças não começariam a fumar tão cedo, e com mais experiência, quem sabe nem quisesse fumar mesmo.
A proibição nunca funciona tão bem quanto a regulação e o controle, pois quando você proíbe, você abre mão de qualquer controle.
Já ouvi muita gente falando que maconha é coisa do diabo, que o cara fuma e fica louco, pirado da cabeça. Muitas dessas pessoas são influenciadas por alguma igreja. Mas para a igreja a bebida também é coisa do capeta. Acredito que para eles qualquer coisa que altere os sentidos é coisa do capeta. Mas garanto que grande parte dessas pessoas não sabe o que é maconha, nunca viu e não tem noção direito do efeito que dá. Eles acham que o cara vai fumar um baseado é sair por aí fazendo merda, roubando, matando gente, cometendo crimes. Mais ou menos na linha do que o governo norte-americano fazia quando proibiu a ganja e começou a fazer propaganda contra na TV. Recomendo que assistam o filme Grass (G R A S S). O que não dá é para tratar o usuário de maconha como marginal. Colocar maconheiro e ladrão no mesmo balaio. Maconheiro não é criminoso. Que mal faço eu, que fumo meu baseadinho no meu canto. Se querem entrar naquela idéia do filme Tropa de Elite, dizendo que é ruim porque dá dinheiro para os traficantes comprarem armas, então libera pra gente poder plantar em casa. Seria melhor para os usuários, que consumiriam um fumo mais limpo e barato, e a gente não correria o risco de ser preso quando tiver pegando fumo, e não daria mais dinheiro para os traficantes.
Só quero deixar claro aqui que a nossa intenção não é incentivar o consumo de maconha. Temos sim o interesse de incentivar a discussão sobre a lei que criminaliza o plantio, o porte e o consumo de ganja. Uma lei que foi criada por ignorância, por desconhecimento quase total do assunto. Na década de 30, sob forte pressão da igreja, que na época influenciava bastante o poder público, o governo de Getúlio Vargas passou a criminalizar a maconha.
Fiquei sabendo nessa semana de um detalhe da lei 11.343/2006, que trata sobre drogas: o artigo 28 dessa lei diz que:
“Quem adquirir, guardar, tiver em depósito, transportar ou trouxer consigo, para consumo pessoal, drogas sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar será submetido às seguintes penas:
I – advertência sobre os efeitos das drogas;
II – prestação de serviços à comunidade;
III – medida educativa de comparecimento a programa ou curso educativo.”
Mas o mais interessante é o parágrafo 1º desse artigo, que diz:
“Às mesmas medidas submete-se quem, para seu consumo pessoal, semeia, cultiva ou colhe plantas destinadas à preparação de pequena quantidade de substância ou produto capaz de causar dependência física ou psíquica.” Traduzindo: que tiver maconha para consumo pessoal e for pego está sujeito à advertência, serviço comunitário e participação em cursos educativos. Não está sujeito à prisão. E quem for pego com pés de cânhamo para consumo pessoal, que seria até uns 2 ou 3 pezinhos, pode sofrer as mesmas 3 penas que quem for pego com ganja. Isso é sensacional, porque o risco que eu corro por ter ganja em casa é o mesmo que corro por ter um ou dois pezinhos. Plantando em casa dá para fumar uma erva mais limpa, sem aquele monte de porcaria que os caras botam para dar volume e peso nos tocos que gente pega aqui. Além disso, com certeza o custo de terra, vaso, eletricidade, água, dá muito menos que o absurdo que tão cobrando na ganja aqui. Portanto, plantando em casa o cara tem uma erva mais barata e limpa, e corre o mesmo risco de pegar no morro. É bom, com certeza. Melhor do que era antes. Mas ainda assim a gente quer mais. O negócio é legalizar a maconha para a gente poder plantar em casa sem correr risco nenhum. Não tem porque correr risco de ser punido por uma atividade que faz mal só para mim, para a minha saúde. Cada um deveria ter direito de escolher o que consumir. Para quem quiser plantar e precisar de ajudar no cultivo, é interessante acessar o site www.growroom.net, que explica todos os passos que se deve tomar no plantio e dá dicas para obter um melhor aproveitamento dos pezinhos. Mas além do plantio, esse site também organiza usuários que querem a liberação da erva. É interessante dar uma olhada lá. www.growroom.net
E nessa pilha da legalização, como já foi dito, tá rolando a Marcha da Maconha por várias capitais brasileiras. Aqui na ilha, vai rolar nesse sábado agora, às 16h no trapiche da beiramar. Em algumas capitais, como São Paulo e Rio de Janeiro, a marcha da maconha foi proibida pelo poder judiciário sob a alegação que era apologia às drogas. Seria apologia se as pessoas estivessem falando: – Fumem maconha!! Mas na marcha nós queremos apenas protestar contra essa lei que torna crime a posse, o plantio e o consumo de maconha. Por que a gente não pode discutir as leis, se os políticos não o fazem com seriedade? No artigo 5º da Constituição Federal, que é a mais importante norma do ordenamento jurídico brasileiro, tem três incisos que devem ser lembrados quando tratamos do assunto. O inciso 4 diz que “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato”. O inciso 9 diz que “é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”. Já o inciso 16 diz que “todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público, independentemente de autorização, desde que não frustrem outra reunião anteriormente convocada para o mesmo local, sendo apenas exigido prévio aviso à autoridade competente”. Portanto a Marcha da Maconha é legítima e não deveria ser reprimida pelo poder judiciário, pois eu posso expressar o meu pensamento e posso me reunir em locais públicos para protestar. São garantias constitucionais.
Mas felizmente esse problema não ocorreu aqui em Florianópolis e esperamos que não ocorra, para que possamos fazer nosso protesto de forma pacífica e tranquila, reivindicando uma discussão para uma mudança na lei, que afeta, como a gente ouviu no jingle da marcha do ano passado, 4 milhões de usuários diários, fora outros tantos que a usam esporadicamente. É muita gente que consome maconha. Tá na hora desse povo todo começar a se mexer, se organizar, em busca de um objetivo comum, que é legalizar. Eu to cansado de ter que fumar escondido. Não sou bandido para ficar me escondendo. Não faço mal para ninguém além de mim mesmo. Não tem porque considerar crime uma conduta pacífica como o consumo de maconha.
Então venha participar da Marcha!! Lembrando que vai acontecer nesse sábado às 16 horas, com saída do trapiche da avenida Beiramar norte.
É uma discussão importante que tem que ser feita na nossa sociedade, é uma discussão que tem que ser feita com seriedade pois afeta todos nós.
Amanhã, sexta-feira, vai rolar aqui na UFSC, no auditório do Centro Sócio Econômico – o CSE, a partir das 9:30, um seminário sobre “perspectivas para mudanças na política de drogas”. Vão rolar palestras, debate, filme, mesa redonda. Enfim, uma programação interessante e informativa para grande parte de nós, maconheiros, que apenas fumam, mas não conhecem direito sobre diferentes aspectos da ganja. As inscrições podem ser feitas pelo site institutodacannabis.org e são gratuitas. Participar de um seminário como esse, assim como participar da marcha da maconha, são ações que ajudam a fortalecer o movimento da legalização. Isso ajuda a mostrar para políticos e governantes, ou melhor, para a sociedade em geral que nós não somos poucos, que não somos vagabundos por querer fumar nossa erva no nosso canto, sossegado. Temos que mostrar a nossa insatisfação com a atual legislação que criminaliza uma conduta pacífica, de fumar um baseadinho. Um hábito milenar, praticado por diversas culturas mundo afora. É inadmissível que por interesses financeiros de uma meia dúzia, e também por preconceito de alguns outros, esse hábito seja proibido.
Como a maconha foi proibida no Brasil em 1940, são umas 3 ou 4 gerações que cresceram aprendendo a não gostar da ganja, cresceram ouvindo que o cara que fuma um fica louco e sai por aí fazendo merda. Se for ver direito, grande parte das pessoas que não gostam de maconha nem sabem porque não gostam dela. Algumas não gostam apenas porque é proibido, porque é contra a lei, mas nunca parou para pensar realmente o porquê da proibição. Não tem noção de que, se fosse legalizado, diminuiria o consumo. É curioso dizer isso, mas é verdade. Se legalizasse a maconha, diminuiria o consumo da erva. Deixa eu explicar. Muita gente começa a fumar quando é adolescente, que é uma época que o cara gosta de fazer coisas diferentes, quer provar para os amigos que pode, que faz e acontece. Então ele começa a fumar justamente porque é proibido, para mostrar que faz algo diferente. Dizem que tudo que é bom é ilegal, imoral ou engorda. É engraçadinho, mas se encaixa bem aqui.
